Tecnologia x Profissões Criativas

Tecnologia x Profissões Criativas

O mercado de design gráfico e comunicação é muito disputado. Agência de publicidade, comunicação e estúdios de design se multiplicaram de uma forma impressionante.

Pensando bem, até que deveria ser o esperado, dado o avanço da tecnologia e o surgimento de novas ferramentas facilitando e automatizando processos que antes eram manuais.

Depois que a tecnologia já está incorporada no dia-a-dia é difícil visualizar a dimensão e o real impacto que aquilo teve na sua vida. Por exemplo: impressora a jato de tinta. Esse dispositivo, hoje presente nas nossas vidas, causou um grande impacto no mercado gráfico. Muitas gráficas fecharam suas portas, pois não conseguiram se adaptar à realidade digital. Mais outras tantas estão fechando nesse exato momento e outras fecharão num futuro próximo.

Máquina Offset Antiga

Da mesma forma é possível descrever várias áreas profissionais atropeladas pela tecnologia. O mercado de fotografia talvez seja o mais icônico. O fotógrafo tinha que estudar e se dedicar bastante. Fotometrar é uma arte. Entender como a luz se comporta em determinadas situações e modelar a realidade através de uma imagem. Infelizmente (ou felizmente) esse mundo romântico não existe mais. O modo automático matou o fotógrafo. O iPhone matou o fotógrafo? Matou mesmo? Não sei. Mas o fato é que os verdadeiros fotógrafos estão tendo que se reinventar pra conseguir competir. Do or die!

Máquina Polaroid

Com a publicidade ocorreu algo semelhante.

As ferramentas de design gráfico facilitaram muito a vida de quem cria. Mas o efeito colateral foi uma enxurrada de apertadores de botões correndo atrás de uma grana fácil. O resultado? Um mercado saturado, qualidade de design e criação cada vez menor e salários, bem, a questão salarial melhor nem comentar. É uma verdadeira linha de produção que de criativa tem quase nada. Me lembro de um professor nos tempos de faculdade reclamando da vida na agência, que fazia os redatores cuspirem campanhas todos os dias.

Aí, eu te falo: é impossível ser criativo todo o tempo, todos os dia.

Já se perguntou como uma campanha publicitária era feita algum tempo atrás?

E os templates?

Vale lembrar também que o desenvolvimento das plataformas de compartilhamento e pagamento digital facilitaram a venda de criações digitais. Um tipo em especial: os templates. Templates são modelos que servem como base para um determinado trabalho de design. Hoje existem templates para tudo que você puder imaginar: sites, apps, apresentações, brochuras e até logos. Talvez seja por isso que as peças publicitárias estejam tão parecidas.

Num cenário em que a velocidade é fundamental, talvez não haja vida longe dos templates. Pelo menos onde a velocidade seja mais importante que a qualidade ou criatividade.

Para ter um panorama mais rico sobre esse fenômeno, nós vamos trocar uma ideia com a Bia Cheriff, designer e criativa. Ela é sócia da Agência Pulse, que é uma das agência sobreviventes no mercado carioca.  Sim, a maioria das agências no Rio de Janeiro ou fecharam ou foram para São Paulo.

Quando começou a Pulse?

A Pulse começou como agência digital, ou seja, já entrou no meio do furacão. E isso foi em 2006, onze anos atrás. Nessa época a gente não tinha muita noção da profundidade das transformações, mas tínhamos muito claro que nada mais seria como antes.

Como antes? O que você quer dizer?

Me refiro ao modo antigo de fazer publicidade, comprar mídia, fazer Tv. Nessa época o Google já estava entrando com muita força com suas ferramentas. De imediato, percebemos como isso iria impactar o mercado digital, sobretudo os anúncios em formato pay per click.

E qual foi a estratégia para se inserir nesse mercado?

Acho que, num primeiro momento, nós levamos muita vantagem em relação às agências mais antigas e tradicionais. Por dois motivos: nós entendíamos o digital e eles não. Tanto que muitas agências começaram a criar braços digitais ou até comprar outras menores. Também por termos uma estrutura micro. No início éramos eu, mais um sócio, um estagiário e um desenvolvedor.

Como estão as coisas agora?

Estamos passando por uma reengenharia. Queremos recuperar essa vantagem pelo conhecimento.

E o processo criativo dentro da agência?

Bem, como somos pequenos, temos a vantagem de poder flexibilizar alguns processos. Temos clientes que nos deixam trabalhar livremente, pois confiam na nossa avaliação, porém também existem casos em que os clientes não querem abrir mão de um determinado framework e precisamos dançar conforme a música. Mas acho que é assim em muitos mercados. Uma etapa de que não abrimos mão é a pesquisa. Gostamos de ter um embasamento sólido para fazer nossas propostas criativas. No final é isso que vai te dar uma base argumentativa. Essa capacidade de mostrar caminhos e apontar equívocos é o que vai te diferenciar dos copistas e plagiadores.

Como vocês se vêem afetados pelas mudanças tecnológicas?

Tem os pontos negativos, mas também os positivos. Por exemplo: a possibilidade de pagar uma assinatura para utilizar determinado software é muito interessante, porque as licenças sempre foram muito caras para a realidade brasileira. Por outro lado, a popularização dessas ferramentas facilitou a entrada de novos concorrentes. Tem mercado pra todo mundo? Não sei.

Você se refere à Adobe?

Sim. Esse é um dos casos.

Mas muitos profissionais e agências se queixaram bastante desse modelo…

Cada um tem seus motivos. Para quem quer pagar pelo software, não vejo problemas. Infelizmente, no Brasil ainda existe a cultura de desvalorização do intangível, do imaterial. Na Pulse nós temos o hábito de pagar pelo software que utilizamos. Especialmente se ele nos traz algum tipo de retorno financeiro.

Um exemplo de como a tecnologia modificou o dia-a-dia da agência:

A nuvem. Muitas coisas que criamos não vão mais para o servidor de arquivos. Vão direto para o Google Drive, Dropbox etc.

Que tipo de job vocês tem pegado com maior frequência?

Branding. Tivemos uma transição natural do design de logo para uma entrega mais completa, com mais abrangência. Hoje nós desenhamos a experiência da marca como um todo. Em alguns casos já pegamos o trabalho iniciado e em outros começamos do zero, trabalhando em conjunto com os diretores.

O que você diria para seus colegas de profissão nesse momento?

Preparem-se. E não parem de pesquisar, pois as mudanças estão muito velozes. Uma especialização é importante, mas também é muito útil saber um pouco de tudo que está acontecendo.

Alguns trabalhos de branding da Pulse

Branding para marca no segmento alimentação e restaurantes.

Branding para Doceria.

Assim como a Pulse, existem várias agências tentando se reinventar e oferecer serviços mais relevantes para seus clientes.

Quem vai partir e quem vai ficar? O tempo dirá.

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